Maria Alice Stock é dona da história bastante original que segue, enviada para o concurso de receita de conto. Nós adoramos e com certeza você vai gostar também! Maria Alice, muito obrigada pela participação. E parabéns demais pelo ótimo conto!
Era uma tarde de sábado, no meio das férias e Laura tinha chamado todos os seus amigos para
brincar de esconde-esconde. Era um pouco difícil encontrar esconderijo para cinco crianças em um
apartamento, elas davam um jeito!
 
Paula, uma amiga de Laura, encostou na estante da sala e começou a contar: um, dois, três, quatro,
cinco…
 
Todos saíram correndo. Enquanto seus amigos procuravam esconderijos no quarto e na sala, Laura
entrou na cozinha, passou correndo pela sua mãe, que estava fazendo um bolo para o lanche, e se
escondeu dentro da despensa. Fechou a portinha de correr exatamente ao mesmo tempo em que
Paula gritava: cinqüenta, lá vou eu!
 
Laura encostou em uma prateleira e ficou prestando atenção, e sentindo o cheiro do bolo que
estava assando. “Vou esperar todo mundo ser pego antes de sair” – ela pensou, e virou para trás
para ver se tinha espaço na prateleira para se sentar.
 
A prateleira estava cheia de latas e outras embalagens, e Laura resolveu esperar em pé mesmo,
mas então percebeu uma coisa estranha. O cheiro do bolo tinha desaparecido. Os barulhos da
casa tinham sumido: não dava mais para ouvir os carros passando na rua, ou os passos da sua
mãe na cozinha. Em vez disso, Laura ouvia até uns passarinhos que ela nunca tinha ouvido no seu
apartamento.
 
Ela abriu a porta e tomou um susto: estava em uma floresta, com árvores bem altas, e parecia tão
grande que ela nem conseguia imaginar onde acabava. Laura correu até a árvore mais próxima e
colocou a mão – era de verdade! “Eu preciso mostrar isso para os meus amigos!”, ela pensou. Deu
meia-volta em direção à porta da despensa mas agora, no lugar da porta, estava só um pesado
portão de madeira, tão alto que nem caberia dentro do seu apartamento. Levando um susto ainda
maior, Laura viu que havia um homem na frente do portão.
 
Era uma figura muito engraçada, com uma roupa vermelha e amarela toda bufante nas pernas e
nas mangas, uns sapatos compridos com as pontinhas viradas para cima e segurava uma trombeta.
 
Póóóó-pó-póóóó! – fez com a trombeta. Era tão desafinada que Laura até sentiu um arrepio.
 
– Boa tarde, visitante! Eu sou o guardião! – disse o homem, inclinando-se para cumprimentar Laura
com uma mesura.
 
-– Boa tarde, muito prazer – respondeu Laura, quase começando a rir. Enquanto ela falava, o
guardião tirou um lenço vermelho do bolso e começou a polir a trombeta. Laura lembrou do
esconde-esconde na sua casa, respirou fundo para não rir e falou para o guardião:
 
– Com licença, você pode me deixar passar, eu preciso voltar, estávamos brincando de esconde-
esconde.
 
O guardião, que era aparentemente tão polido, mudou completamente de humor.
 
– Não deixo não, você entrou aqui, agora precisa cumprir as regras.
 
– Que regras?
 
– E então, como é, quando vai começar a história?
 
– Que história? Eu só quero sair daqui, voltar para dentro da minha casa!
 
– Ah, mas para sair você precisa me contar uma história…
 
– Qual história você quer ouvir? Eu sei um monte, é só você me dizer.
 
– Não, não uma história que você já conhece. Uma história nova, inventada por você.
 
– Mas como é que eu vou inventar uma história?
 
– Não sei, isso é problema seu, pense em alguma coisa que aconteceu com você…
 
– Bom, nesse caso, acho que quero contar a história de como eu cheguei aqui. Eu estava brincando
de esconde-esconde com os meus amigos, lá na minha casa, e resolvi me esconder na despensa.
Daí eu virei para trás para olhar o que tinha na prateleira e quando olhei para a porta vi que tinha
uma coisa diferente…
 
– Aaaaaahhhhh, fez o guardião, bocejando. Encostou em uma árvore e foi fechando os olhos.
 
Laura continuou:
 
– Quando abri a porta, vi que tinha chegado aqui!
 
O guardião já estava até roncando. Parecia que ele estava fingindo, como é que alguém podia
dormir assim tão rápido?
 
Laura estava com vergonha de acordar o guardião, mas queria ir embora. “Talvez ele quisesse
mesmo era uma história para dormir. Acho que já posso ir”, ela falou baixinho. Mas foi só ela
encostar no portão, que o guardião deu um pulo e começou a esbravejar, brandindo a sua lança:
 
– Onde você vai? Você não pode ir a lugar nenhum sem antes me contar uma história!
 
– Mas eu acabei de contar! Disse Laura, ela já estava ficando nervosa com aquilo. Só que você
dormiu!
 
– Muito esperta você, não? Pensa que é a primeira pessoa que tenta me enganar, aproveitando-se
do meu sono para fazer de conta que contou uma história…
 
– Mas eu contei mesmo! Exclamou Laura, eu contei a história de como eu tinha chegado aqui!
 
– Então, se você contou e eu dormi, é porque era uma história muito ruim mesmo!
 
Laura começou a ficar assustada… e se esse guardião não a deixasse voltar mais para casa? E se ela
tivesse que ficar ali para sempre? Mas ela mal teve tempo de pensar em todas essas coisas, porque
o guardião começou a gritar:
 
– Vamos! Saia já daqui! Está me atrapalhando!
 
– Por favor, guardião, me deixe sair… pediu Laura.
 
– De jeito nenhum! Chispe! Ou então eu chamarei os cães de três cabeças! Eles conseguem pensar
três vezes mais rápido que a maioria das pessoas e, como têm três cabeças, também mordem três
vezes mais!
 
– Mas… insistiu Laura.
 
– Olhe que eu chamo, hein? Póóóóóóó – começou o guardião com a sua trombeta. Laura ouviu
latidos bem de longe e, apavorada, saiu correndo. Estava tão assustada que quando percebeu
estava no meio da floresta.
 
Um pouco ao longe, viu uma placa fincada no chão. Continuou correndo em direção à placa, até
que, quando chegou perto, conseguiu ler o que dizia:
 
Fada-bruxa
 
Temos ingredientes para qualquer tipo de história
 
Um caminho de pedrinhas brancas começava onde a placa estava. Laura pensou um pouco,
enquanto recuperava o fôlego da corrida. Ela estava um pouco desconfiada, já que era a primeira
vez que via uma propaganda de ingredientes para histórias, mas finalmente tomou o rumo das
pedrinhas. Afinal de contas, o único jeito de passar pelo guardião era armada de uma boa história
e, como ele parecia não gostar da que Laura tinha contado, quem sabe com a ajuda da fada-bruxa
ela conseguisse voltar para casa.
 
Parecia que ela estava andando fazia pelo menos uma hora quando chegou a uma casa enorme,
tão grande que parecia um castelo. A casa tinha as paredes cor de rosa e uma porta de madeira
entalhada formando pequenas flores, com uma argola de metal que servia de campainha, como nas
casas de antigamente. Em volta da casa havia um jardim, com plantas que Laura nunca tinha visto
antes.
 
Laura achou aquele lugar bonito. Do jardim vinha um perfume agradável e o piado macio dos
pássaros que moravam nas árvores. Laura pensou que, se não tivesse pressa de voltar para casa,
gostaria de se sentar ali na grama e ficar ouvindo, quem sabe até pegar no sono.
 
Mas ela precisava voltar para casa, e por isso segurou a argola que servia de campainha e bateu com ela na porta três vezes. O som parecia ecoar lá dentro, e Laura imaginou um salão enorme.
 
Mal teve tempo de decidir se batia outra vez ou não, a porta foi se abrindo. Parecia ser pesada,
pois se mexia um pouco devagar. Finalmente uma figura que só podia ser a fada-bruxa apareceu na
porta e deu um passinho à frente.
 
Era uma senhora baixinha, com um vestido roxo até o pé, com mangas compridas que estavam
dobradas na ponta.
 
– Entre, entre, faça o favor, eu imaginei que você poderia aparecer, sabe, hoje o galo cantou um
instantezinho mais cedo e toda vez que ele faz isso é porque alguém vem nos visitar.
 
Laura olhou para a fada-bruxa. Será que ela poderia ajudar mesmo? Tudo o que ela queria naquela
hora era estar em casa comendo seu bolo de maçã… Com um suspiro, ela disse:
 
– Boa tarde, dona Fada-bruxa, desculpe o incômodo. Sabe, eu vim pedir ajuda para criar uma
história…
 
A fada andou um pouco para o lado para fazer espaço para Laura passar. Foi então que Laura
percebeu como a casa da Fada-bruxa era pequena. Parecia enorme do lado de fora, mas por dentro
era do tamanho da despensa da casa de Laura. Em uma das paredes havia uma estante cheia
de livros, na outra uma janela com uma pia e um fogão embaixo e, do outro lado, um monte de
gavetas, até o teto. Empoleirado na beirada da janela estava um galo, todinho verde, até o bico
era de um verde-claro quase amarelo. Laura deu um passo a frente e a fada-bruxa fechou a porta.
Abrindo uma das gavetas, a fada puxou de dentro dois banquinhos, e estendeu um deles para
Laura.
 
– Você aceita uma xícara de chá?
 
Laura estava com sede e disse:
 
– Aceito, obrigada.
 
A fada virou para o lado da pia e pegou um bule que estava sobre o fogão. Abrindo uma outra
gaveta, pegou duas xícaras e um copo com canudinho, e encheu os três de chá de cor de rosa
escuro. Depois colocou o copo no parapeito da janela, onde estava o galo e disse:
 
– Cuidado, está quente.
 
O galo chegou perto do canudo, colocou o bico e começou a beber o chá. Laura teve vontade de
rir – ela nunca tinha visto um galo que soubesse beber com canudo! Mas ela também nunca tinha
visto um galo todo verde. A fada-bruxa estava tão entretida com a sua xícara que nem percebeu o
espanto de Laura. Ela achou que estava na hora de resolver o que tinha ido fazer lá e disse:
 
– Então, dona Fada, como eu ia dizendo, eu vim até aqui porque preciso de ajuda para criar uma
história. O guardião me disse que eu só posso sair pela porta por onde eu entrei se eu contar uma história, mas tem que ser uma história nova.
 
– Minha menina, nesse caso eu acho que você nem precisa de mim! Com certeza você sabe contar
uma história melhor do que qualquer uma que eu possa imaginar!
 
– Na verdade, eu já tentei contar uma história para ele, mas ele dormiu e quando acordou disse
que não valia, que eu teria que contar outra, senão ele não me deixaria passar! E então eu vim
pedir a sua ajuda… você pode me ajudar? Por favor?
 
A fada-bruxa olhou para Laura, olhou pela janela, olhou para o galo. Finalmente, depois de alguns
minutos, ela disse:
 
– Tudo bem, ajudo você. Mas você precisa me dizer exatamente o que você quer, eu não posso
inventar histórias para as pessoas, somente vou colocar todos os ingredientes juntos.
 
– Obrigada, dona Fada! Muito obrigada! Sabe, eu estava pensando em uma história assim cheia de
dragões, e princesas, e uma floresta assombrada… alguma coisa que não fizesse o guardião dormir,
porque eu preciso voltar para casa, daqui a pouco será hora do jantar e se eu não aparecer meus
pais vão ficar muito preocupados… – disse Laura, terminando a sua xícara de chá.
 
– Hummm, dragões? Dragões estão um pouco fora de moda, você sabe, agora eles só podem viver
nas suas reservas, ninguém mais pode sair matando dragões ou colocando-os para montar guarda
na frente de castelos, os guardiões multam qualquer pessoa que fizer isso! Mas nós podemos fazer
a sua história se passar em algum tempo bem antes de hoje em dia, quando os dragões protegiam
as princesas, e os príncipes podiam matá-los, e havia bruxas e havia fadas…
 
– Mas não existem mais bruxas e fadas? – perguntou Laura, olhando para a fada-bruxa com
curiosidade – O que você é?
 
– Ah, agora não há mais bruxas e fadas, somente fadas-bruxa ou bruxas-fada. As pessoas precisam
ser todas equilibradas, um pouco de cada coisa… Eu, por exemplo, nasci fada, mas de vez em
quando faço umas bruxarias. Sorte sua ter aparecido hoje e não na semana passada, porque o galo
e eu estávamos passando uns dias como bruxos, tinha até uma nuvem cinzenta em cima de casa.
 
Laura arregalou os olhos.
 
– Bem, é assim que acontece. Minha irmã, que é uma bruxa-fada, de vez em quando enche o seu
jardim de coelhinhos e fica cantarolando na janela.
 
– Mas como assim?
 
– Nós estávamos cansados de todas as histórias serem iguais: sempre a fada, a bruxa, a princesa…
Então, para ver se a coisa variava, inventamos essa coisa de cada um ser um pouco de outra coisa
também.
 
– E funcionou? Quer dizer, as histórias ficaram mais variadas depois disso? – Laura estava achando tudo isso muito estranho.
 
– Sabe que funcionou sim? Algumas pessoas descobriram que elas gostavam de ser outros
personagens. Tem até um rei que quis ser dragão, deixou a rainha e a princesa no castelo e foi para
uma caverna, soltar fogo pelas ventas. Só quem não gostou muito foram os guardiões, eles teimam
em ser sempre a mesma coisa. Mas você veio aqui porque precisa de uma história, então vamos
cuidar disso.
 
A fada se levantou, levantou o banquinho em que estava sentada e com a outra mão puxou para
baixo as pernas do banquinho. Cada perna foi ficando mais comprida, até que ele ficou com o
dobro da altura que tinha antes. A fada tirou um pote de vidro de dentro de uma gaveta mais
embaixo e encheu de água. Depois subiu em cima do banquinho e começou a mexer nas gavetas de
cima.
 
– Deixe-me ver… Um pouco de princesa, sim, princesa, e corajosa – disse a fada, abrindo uma
gavetinha, depois outra, e tirando com a colher um pouco de um pó colorido de cada uma delas
para colocar no pote de vidro. – Um dragão – a fada jogou outro pozinho dentro do vidro e saiu
uma chama brilhante. Em seguida a chama apagou e o vidro ficou soltando fumaça. Laura estava
espantada, nunca tinha imaginado uma história desse jeito.
 
– Podemos pôr também uma floresta assombrada? – perguntou Laura.
 
– Floresta assombrada infelizmente eu não tenho, podemos colocar um pouco de pântano se
você quiser, o que você acha? – a fada abriu uma gavetinha onde havia um pó verde-escuro muito
mal-cheiroso, e Laura fez que não com a cabeça. – Ah, tudo bem, podemos colocar um jardim, eu
tenho um simples por aqui em algum lugar… – e a fada abriu gaveta após gaveta, de onde saíam
faíscas laranja, reflexos prateados, cheiro de chocolate quente, de grama molhada, de bolhinhas de
sabão… até que ela abriu uma gaveta com cheiro de flores e pegou um pó que era uma mistura de
verde, rosa, laranja e amarelo e colocou uma colherada no pote de vidro.
 
– E nós vamos precisar também de outros personagens, não vamos? – perguntou Laura, que não
via como ia sair uma história de uma mistura de jardim, dragão e princesa corajosa.
 
– Você é quem sabe, é a sua história!
 
– Acho que devemos colocar um pouco de ação, assim, como uma bruxa… – Laura olhou em volta,
com vergonha de dizer que precisavam de uma bruxa para ser a vilã – ou um mago, ou uma rainha
malvada… ou, por que não, podemos colocar um guardião, ele pode ser o vilão da história, o que
você acha?
 
– Eu acho que esta é a sua história e você é a melhor pessoa para saber quem vai ser o vilão e como
a história toda vai se desenrolar…
 
Laura pensou um pouco, depois disse:
 
– Então vamos colocar um guardião, você tem aí?
 
A fada abriu uma gaveta com um pó vermelho e colocou uma colherada bem pequena no pote.
Assim que o pó se misturou com os ingredientes que já estavam no pote, saiu um som como o da
trombeta do guardião, e Laura deu um pulo.
 
– Podemos colocar um pouco de ingredientes ao acaso, se você concordar, algumas pessoas não
gostam mas eu sempre acho que a história fica mais convincente, disse a fada, abrindo uma gaveta
onde havia um pó cinzento que, na verdade, era de várias cores misturadas. Laura fez que sim com
a cabeça e a fada acrescentou os ingredientes embaralhados ao potinho. – e, finalmente, o mais
importante… um final feliz!
 
Na pontinha dos pés, a fada puxou uma gaveta toda decorada e colocou a colher lá dentro, sem
conseguir enxergar. Pegou uma colher bem cheia e colocou no pote. Misturando esse último
ingrediente, a fada levantou o potinho e olhou para ele… o líquido lá dentro estava de uma cor
entre o branco e o prateado, e soltava uma fumaça sem cheiro.
 
– Agora, nós precisamos da sua autoria. Você precisa colocar no pote algumas palavras que
expliquem que essa é a sua história, pois só assim ela poderá ficar pronta. Até agora, ela é uma
mistura de vários ingredientes que podem dar uma história boa ou ruim, trágica ou alegre.
Somente no momento em que a pessoa que criou essa história disser a ela como será é que ela
pode ficar pronta.
 
– Mas eu não sei como é a história… – balbuciou Laura, de repente se sentindo de novo assustada,
sem saber como ia sair da situação tão estranha em que estava.
 
– Sim, sim, muitas vezes isso acontece, nós não sabemos como vai ser a história e, no entanto, ela
nos pertence. A decisão é sua para ela existir ou não, eu não posso dar vida a essa história ou ela se
tornaria a minha história.
 
A fada estendeu o pote de vidro para Laura.
 
Laura olhou para o pote. Como é que ela faria sair uma história dali? A fada desceu do banquinho,
foi até a outra ponta da parede, e tirou de uma gaveta um pedaço de papel e uma caneta.
 
– Se você achar mais fácil, pode escrever.
 
Laura pegou o papel e a caneta. Pensou um instante e em seguida escreveu: meu nome é Laura, e
esta história é a única maneira de eu voltar para casa. A fada estava olhando pela janela, passando
a mão nas costas do galo, que estava quase dormindo.
 
– Dona fada?
 
A fada olhou para Laura, parecia que estava muito distraída, sorrindo na janela. Em um instante ela
pareceu se lembrar do que estavam fazendo e disse:
 
– Pronto?
 
Laura fez que sim.
 
– Então vamos, coloque o papel dentro do pote!
 
Laura dobrou o pedaço de papel e colocou no pote. Rapidamente, o papel se dissolveu e o líquido
ficou transparente.
 
– Ótimo, parece ótimo, agora você já pode beber.
 
– Eu preciso beber essa coisa? – perguntou Laura, pensando enojada em todos os pozinhos que
a fada havia misturado, e daí lembrou que, ainda bem, ela não tinha colocado o pântano mal
cheiroso.
 
– Ora, não fale assim da sua história! É a sua história, para você poder contá-la para os outros, é
preciso que ela esteja dentro de você!
 
– Mas você pôs até dragão aí dentro, será que não vai fazer mal para mim?
 
– É claro que não, vamos lá, pode beber, beba tudinho, ou não vai adiantar nada ter misturado
todas essas coisas!
 
Laura aproximou o pote do nariz. O líquido da história não tinha cheiro de nada. Tentando não
pensar em todos os ingredientes que elas haviam misturado ali dentro, inclusive uma folha de
papel, ela colocou a boca na beira do pote e virou, tomando tudo.
 
De repente Laura deu um pulo, e sentiu um frio na barriga igual ao de montanha-russa. E no
instante seguinte ela não estava sentindo mais nada, como se não tivesse acabado de engolir uma
mistura de dragão com princesa e jardim, mais uma folha de papel.
 
– Muito bem, agora você pode voltar ao portão e contar a sua história ao guardião! Você não quer
comer um biscoito antes de ir? – disse a fada, oferecendo um pote que ela havia tirado de outra
gaveta. – são de gengibre.
 
Laura pegou um biscoito e comeu, mais para esquecer a sensação da poção que ela havia acabado
de tomar do que por vontade de experimentar os biscoitos de gengibre da fada. Quando acabou de
mastigar, se sentiu de novo ansiosa para voltar para casa e se levantou, dizendo:
 
– Dona fada, muito obrigada, muito obrigada mesmo.
 
Ela não sabia mais o que dizer. Apesar de ter ficado contente com a fada simpática, ela não tinha
certeza de que a história engolida iria funcionar. E se desse tudo errado? Será que a fada deixaria
ela voltar e prepararia outra história para ela? E se essa coisa toda de preparar histórias com
ingredientes mágicos fosse uma mentira? Será que Laura conseguiria inventar uma história todinha
da sua cabeça e voltar para casa? Será que a fada não aceitaria ir com ela até o guardião e contar
uma história para ele, convencê-lo a deixá-la ir embora? E se ela não conseguisse voltar para casa nunca mais? Será que ela teria que se tornar uma fada-bruxa também? E um dia alguém bateria na
porta dela pedindo ajuda para voltar para casa?
 
A fada-bruxa sorria para ela, segurando a porta aberta. Ela havia colocado os banquinhos de volta
na gaveta para conseguir chegar até a porta.
 
– Não há de quê, Laura, não há de quê. Volte sempre, viu?
 
“Eu hein?”, pensou Laura, imaginando ter que voltar sempre à casa da fada-bruxa. Mas, como
estava agradecida pela ajuda, não disse nada, e foi andando de volta pelo caminho pelo qual tinha
vindo, até chegar à placa indicando a casa da fada, que agora dizia
 
Obrigada e volte sempre!
 
De volta no meio das árvores, Laura não conseguia pensar no que ia falar para o guardião… apesar
de já ter engolido a história havia algum tempo, ela ainda não sabia do que se tratava. Tudo isso
parecia uma loucura, fazer uma história a partir de ingredientes que se tira de uma gaveta, e depois
misturar mais um pedaço de papel, e engolir… eu devo estar maluca, pensou Laura, mas , ao
mesmo tempo, que outra chance eu tenho?
 
Chegando no portão, Laura viu de longe o guardião, que procurava alguma coisa entre ao ramos
de uma árvore, murmurando uma canção engraçada que falava sobre coelhos e seus esconderijos.
Quando percebeu que Laura se aproximava, o guardião se aprumou, segurando sua lança,
ajeitando o chapéu de bobo na cabeça, e encarou Laura com um sorriso forçado.
 
– Vejo que você voltou, então… será que desta vez tem uma história? Uma que não dê um sono
incontrolável… – completou o guardião, fingindo um bocejo.
 
– Voltei. – disse Laura, tentando ganhar tempo. Pensou em dizer que havia estado na casa da fada-
bruxa, mas ficou com medo de o guardião dizer que história com ajuda não valia, e achou melhor
não falar nada.
 
– E que história você trouxe para nós? – perguntou o guardião, solene, estendendo os braços e
olhando para os lados como se houvesse uma grande platéia, apesar de eles estarem sozinhos, a
não ser pelas árvores em volta. Laura pensou no cachorro de três cabeças e continuou a falar:
 
– É uma história sobre uma princesa. E um dragão. E um guardião – disse Laura, um pouco
apavorada, sem saber como aquilo iria funcionar.
 
– Uma princesa, um dragão e um guardião, sei, sei sei… como se chama?
 
Laura não havia pensado nisso, e disse, sem querer parecer insegura:
 
– A princesa, o dragão e o guardião.
 
– Ora mais que original! – disse o guardião, e se estendendo no chão continuou – vou me preparar,
você não se importa, não é mesmo? Afinal de contas, com tanta imaginação, só posso é cair no sono novamente. – e o guardião puxou o chapéu para cima dos olhos, para se proteger da claridade
e cruzou os braços debaixo da cabeça, para formar um travesseiro.
 
Laura respirou fundo. Ela sabia que tinha pouco tempo para agir, ou o guardião cairia no sono, ou
fingiria ter caído, e lá se iria sua chance novamente.
 
– Em um reino distante, havia uma princesa que era muito sabida. Com quinze anos ela já tinha
aprendido tudo o que os professores do palácio podiam ensinar, e disseram a seus pais que teriam
que deixá-la partir para uma viagem pra outros reinos, para adquirir mais conhecimento, já que
tudo o que podia ser aprendido naquele reino já era dela. Os pais da princesa ficaram muito
assustados, mas acabaram concedendo, com a condição de que ela fosse acompanhada por um
guardião.
 
Laura não sabia de onde estava vindo a história, as palavras simplesmente estavam aparecendo,
como se fizessem parte da sua respiração. O guardião puxou o chapéu um pouco para cima,
olhando de lado. Percebendo que tinha conseguido a atenção dele, Laura continuou:
 
Após alguns meses de preparativos, em que o guardião foi treinado em todos os tipos de luta e
a princesa releu todos os seus livros, inclusive os dicionários de línguas estrangeiras, finalmente
chegou o dia da partida. A rainha, carregando um lenço tão grande quanto uma toalha de mesa,
se aproximou da princesa e lhe disse: “Minha filha, tome muito cuidado, não sabemos o que
pode aparecer no seu caminho…” – depois assoou o nariz na toalha e segurou o braço do rei, que
estava triste com a partida da princesa mas não conseguia pensar em nada para dizer, então disse
somente: “Boa sorte. Volte logo.”
 
A princesa e o guardião partiram em uma carruagem. Logo ficou claro que eles não se entendiam
bem, porque a princesa achava o guardião muito medroso. Ele não queria buscar lenha na floresta
para a fogueira que faziam à noite com medo de encontrar uma bruxa, também se recusava a
tomar banho no rio, porque tinha medo dos peixinhos, e depois de alguns dias a princesa começou
a colocar um pregador no nariz toda vez que ia falar com o guardião, para evitar o mau cheiro.
O guardião, por sua vez, achava a princesa muito chatinha, tinha sempre que se meter em tudo,
queria ver tudo de perto, mesmo que fosse perigoso.
 
Eles foram passando por vários reinos, e em cada um eram recebidos com curiosidade, pois muitas
pessoas nunca tinham visto alguém que viesse de tão longe. A princesa ficou amiga de reis, magos e
até bobos da corte. Ela estava adorando conhecer tanta gente e a cada reino em que eles passavam
ela aprendia mais.
 
Um dia, a carruagem subia uma montanha íngreme, toda pedregosa. Os cavalos estavam muito
cansados e empacaram. O guardião pôs a cabeça para fora e quase desmaiou quando olhou lá
para baixo e viu o último palácio por onde eles tinham passado bem pequenininho. A princesa se
apressou em descer da carruagem e olhar a paisagem. Um pouco mais à frente, havia uma abertura
na rocha que levava para uma caverna. A princesa se aproximou com curiosidade, enquanto o
guardião roía as unhas de medo.
  
Quando ela chegou bem perto da caverna, veio uma espécie de rugido lá de dentro e em seguida
um focinho surgiu para fora da caverna e dele saiu uma chama azulada. A princesa teve que abaixar
para não queimar o seu cabelo. Era um ninho de dragões. O guardião gritou: “Afaste-se!” Ele
mesmo já tinha descido da carruagem e estava correndo na direção contrária, para se esconder
atrás de uma pedra. Mas a princesa quis chegar mais perto. Pegou um frango que eles haviam
preparado para o jantar e colocou na frente da caverna. Depois de alguns minutos, os dragõezinhos
colocaram a cabeça para fora, farejando. Pareciam muito simpáticos, com escamas coloridas.
 
O guardião ficou apavorado e não dormiu a noite toda. Só se acalmou quando levantaram
acampamento na manhã seguinte. Mas um dos dragõezinhos resolveu seguir a carruagem e,
quando pararam para dormir, a princesa arrumou até uma cama de folhas e separou uma parte
da comida para ele. O guardião estava muito cheio de toda essa história, ele não estava ali para
acompanhar a princesa em piqueniques com dragões. A princesa olhou para os cavalos, que
estavam cansados, e suspirou: “Acho que vou dar uma volta com o dragão… você não quer vir,
guardião?”. Ela perguntou, mais para ver a reação dele do que para ser gentil, porque ela já sabia a
resposta.
 
– Ah, mas que princesa mais irritante! E então, que foi que ele disse? – perguntou o guardião.
 
– O que você acha que ele disse?
 
– Acho que ele disse… Pode ir, então, se você quiser!
 
Laura arregalou os olhos. No momento em que o guardião falou isso, o portão se abriu, e ela
percebeu que podia ir embora. Era como se o guardião tivesse pronunciado palavras mágicas.
 
– Isso, foi isso mesmo que ele disse, falou Laura, enquanto andava para perto do portão, com
medo de que ele se fechasse antes que ela pudesse entrar. Estava muito escuro lá dentro e ela não
conseguia ver se era mesmo a despensa que estava do outro lado, mas achou que precisava tentar
mesmo assim.
 
– Ele estava cansado de ter que acompanhar aquela princesa que não queria saber de nada do
que ele falava. Então a princesa montou no dragão e saiu voando, de volta para seu reino, pois ela
também já estava cansada de viajar.
 
Laura estava ao lado do portão, ansiosa para terminar a história. O guardião estava com os olhos
fechados e não tinha percebido que o portão estava aberto.
 
– Quando chegou de volta ao reino, a princesa foi recebida com uma grande festa. Todos ficaram
assustados com o dragão, mas ela explicou que era mansinho e então até construíram uma casa
para ele no jardim. Às vezes ele queimava as flores, principalmente quando ficava resfriado. Mas a
princesa não importava. Ela decidiu abrir uma escola real para ensinar aquilo que tinha aprendido
pelos reinos afora, e aceitava alunos de todas as idades. O rei e a rainha ficaram muito felizes e se
matricularam também. E assim viveram todos felizes para sempre.
 
Laura colocou um pé do outro lado do portão, e olhou para o guardião, que abriu os olhos devagar
e se sentou na grama. Só então ele percebeu que ela estava quase do outro lado do portão. Com
um pulo, ficou de pé e gritou:
 
– Espere! Você não pode ir embora!
 
– Posso sim, você mesmo falou – respondeu Laura: “pode ir, então, se você quiser”.
 
O guardião percebeu que tinha deixado escapar as palavras mágicas e ficou furioso:
 
– Volte aqui! Devolva já as minhas palavras! Póóóóó!!! – fez com a trombeta.
 
Mas Laura já tinha atravessado a porta e quando quis olhar para trás, ainda dando risada, deu
de cara com um monte de potes e latas. Estava de volta na despensa apertada e dava para sentir
novamente o cheiro de bolo. Quanto tempo fazia que ela estava ali? Laura pensou no bolo que
devia estar pronto e se ainda ia ter algum pedaço para ela. Abriu a porta e na mesma hora deu de
cara com sua amiga Paula:
 
– Achei! Achei! – e saiu correndo. Um, dois, três, Laura na despensa!
 
Laura nem importou muito. Não ia ser tão ruim ter que bater pique, ainda mais depois de um bolo
de maçã. “Mas preciso avisar para ninguém se esconder na despensa”, pensou.
Thais (286 Posts)

Thais Caramico acredita em carrossel, mas prefere ver o mundo do segundo andar de um ônibus vermelho. Tem uma bicicleta que dobra, uma cachorra chamada Baleia e a mania de se perder no miolo dos livros.