Minhas andanças por aí foram interrompidas por uma inesperada doença da pequena Helena, mas resolvi passear assim mesmo. Embarquei numa viagem, sem acompanhantes, por dentro dos meus armários e por cima das minhas estantes de livros. Quantas descobertas, quantos reencontros. O tempo parecia brincar de mágica conforme tirava as coisas do lugar, ora ele parava, ora voltava para trás. E é sobre uma dessas voltas do tempo que vou contar hoje.
Estava decidida a organizar meus livros e fui descendo todos para o chão quando puxei um que me fez parar tudo. Primenari. O tempo começou a voltar rapidamente e me levou para uma sala de aula muito especial, há quase dez anos atrás.
Não me lembro do motivo que nos fez pesquisar Portinari, me arrisco no centenário do seu aniversário, mas recordo das diversas telas do pintor que deixavam aquela sala ainda mais intensa. Intensidade era a marca daquela turminha, tudo se transformava em discussões acaloradas, as ideias ali ganhavam vida. E foi assim que nasceu nosso livro.
Cada aluno, depois de entrar em contato com muitas obras do autor, escolheu sua tela preferida e eram elas que estavam expostas na nossa sala, junto com suas justificativas. Apreciávamos aquelas pinturas diariamente, elas começaram a aparecer no meio dos cadernos, nas construções com lego e nas brincadeiras do recreio. Pedi, então, para que fizessem uma releitura da tela com massinha em uma bandeja de isopor. Nossa, nasceram verdadeiras obras de arte. Uma delas, mais tarde, se transformou na capa do nosso livro.
Quando todas as telas estavam prontas, começamos a organizá-las para mostrarmos à professora de arte e inesperadamente os meninos começaram a narrar uma história. Colocavam e tiravam as telas conforme as ideias iam surgindo, inventavam personagens e diziam com propriedade:
― Era nisso que Portinari estava pensando!
Por dias ficamos envolvidos na criação da nossa história que ganhou como título “Primenari”. Não me lembro de quem foi a ideia, mas me recordo que foi unânime na votação da turma, era a junção de Portinari e Primeira série.
Quando tudo estava terminado comemoramos muito, lemos para as outras turmas, fizemos uma pequena exposição com nossas telas e nosso texto. Mas para mim faltava algo, queria que aqueles meninos percebessem a grandiosidade do seu texto. Saí da escola decidida a fazer um livro para presenteá-los. Não tinha scanner, nem impressora, mas queria que a letra deles fosse preservada. Fui parar no escritório de amigo, designer gráfico, levando comigo todos os textos e telas, passamos o fim de semana ali, mas na segunda-feira cheguei na escola com o livro debaixo do braço.
Aqueles olhinhos brilhando preenchem até hoje minha memória, indescritível. Cada dia da semana era um que levava nosso tesouro para casa. Na reunião de pais ganhei uma surpresa, uma mãe reproduziu nosso livro e cada um ganhou seu exemplar e foi o meu que encontrei na estante.
A intensidade daquela turma me envolvia por inteira, fizemos por dois anos, uma dupla perfeita.
Carla Solano é professora desde pequenininha e a sala de aula é o seu lugar preferido. Tem em casa a sua maior escola, Pedro, Maria e Heleninha. Cheia de molas na cabeça, é deitada na areia que faz sua brincadeira favorita: olhar o céu.

























1 garatujo comentou!
Deborah falou:
16/08/2012
Primerari… esse eu me lembro bem! Também tenho meu exemplar guardado. Momento primoroso de interação plena da arte com o escrito! Bjo, Carla.
Deborah