Hoje acordei transgressora de duas formas: primeiro, porque estou postando num domingo, logo depois de ter publicado (na última quinta) e fora da minha periodicidade “oficial” (quinzenalmente). Mas esse espaço, tão querido, não só me oferece essa liberdade como me estimula a certas estripulias: as garatujas sempre fazem questão de me deixar crescer até dar pé =]

Estou sendo “rebelde” também porque esse post não trata especificamente de design, o tema que costumo abordar, mas sim de poesia. Mas como pra mim o design é um processo de organização de coisas, acho que também é possível pensar na poesia como uma organização das palavras e dos sentidos pra nos encher de alegria e inspiração!

Daí que depois de uma semana bem difícil, acordei sábado com um solão brilhando lá fora, peguei Neno e corri junto com o Fe (meu marido) pra Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Bem do ladinho do prédio tem um gramadão que fica deserto aos finais de semana com um monte de árvores bem antigas e majestosas pra gente deitar embaixo e escutar os passarinhos.

Depois de muito descanso, um piquenique e uma soneca, peguei um livro de poesias do Manoel de Barros que trazia na bolsa e li um texto que me curou de tudo! Pensei que também poderia compartilhá-lo com vocês, amigos garatujos, já que todos nós temos nossos dias ruins (dica preciosa de minha amiga Clarinha: Manoel de Barros é um santo remédio!). Gostaria de dedicá-lo especialmente às garatujas desse site, minhas amadas e saudosas amigas, espalhadas por esse mundão de meu Deus, carregando por aí um pouco (ou muito) de mim. Amo vocês com força <3!

Poeminha em língua de brincar

Ele tinha no rosto um sonho de ave extraviada.

Falava em língua de ave e de criança.

Sentia mais prazer de brincar com as palavras do que de pensar com elas.

Dispensava pensar.

Quando ia em progresso para árvore queria florear.

Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer ideias com elas.
Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria de rir.

Contou para a turma da roda que certa rã saltara sobre uma frase dele

E que a frase nem arriou.

Decerto não arriou porque tinha nenhuma palavra podre nela.
Nisso que o menino contava a estória da rã na frase

Entrou uma Dona de nome Lógica da Razão.
A Dona usava bengala e salto alto.

De ouvir o conto da rã na frase a Dona falou:

Isso é Língua de brincar e é idiotice de criança
Pois frases são letras sonhadas, não têm peso, nem consistência de corda para aguentar uma rã em cima dela

Isso é língua de raiz – continuou

É língua de Faz-de-conta
É língua de brincar!

Mas o garoto que tinha no rosto um sonho de ave extraviada
Também tinha por sestro jogar pedrinhas no bom senso.

E jogava pedrinhas:

Disse que ainda hoje vira a nossa Tarde sentada sobre uma lata ao modo que um bentevi sentado na telha.

Logo entrou a Dona Lógica da Razão e bosteou:

Mas lata não aguenta uma Tarde em cima dela, e ademais a lata não tem espaço para caber uma Tarde nela!
Isso é língua de brincar
É coisa-nada.

O menino sentenciou:

Se o Nada desaparecer a poesia acaba.

E se internou na própria casca ao jeito que o jabuti se interna.

***

Glossário amigo:

> O livro que eu estava lendo, do Manoel de Barros, era o “Poesia Completa”, da Editora Leya.

(peguei a foto emprestada no blog puppenhaus

> Esse aqui é o gramadão com as árvores onde moram os passarinhos.

(peguei no flickr da Amanda Previdelli

 > No final do dia, quando chegou uma molecada com mais dois cachorros e o dia terminou na maior farra.

(foto do Felipe Daros, marido e co-autor do Lave as Orelhas!)

 > E isso foi o que sobrou do Neno, na volta pra casa.

 

Luciana Orvat (31 Posts)

Luciana Orvat é designer, um nome metidinho pra dizer desenhista de alguma coisa. É olhando o mundo que ela se inspira. Até mesmo quando Neno, seu cachorro-salsicha, rouba a concentração. Já é adulta faz tempo, mas sabe que seu maior charme é viver como se fosse criança.