Todas as quartas nos encontrávamos para brincar e dançar, eu e minhas quinze mulheres, meu coven de alunas, algumas já professoras, outras futuras…

Conversávamos sobre a falta de quintais e de primas mais velhas, aquelas que eram as detentoras da sabedoria das brincadeiras, cujos segredos eram passados de boca em boca e de corpo em corpo na Aclimação, na Vila Mariana, na Barra Funda, na Brasilândia, na Casa Verde, em Pirituba e no Cambuci onde crescemos, nas noites de verão depois da escola ou nos finais de semana. E também sobre a falta de encontros, hoje, entre crianças de idades diferentes, mais velhas, mais novas, misturadas, olhando de pontos de vista diferentes para aqueles brinquedos – algumas, quase que somente movimento, e outras, já deixando de ser crianças e se iniciando nas brincadeiras do coração.

Naquela noite de quarta-feira, ao invés de ficarem lamentando o passado ou as oportunidades perdidas, minhas mulheres decidiram brincar. E eu brincaria que era a prima mais velha, já que me cabia ensinar-lhes as brincadeiras.

A primeira foi Eu sou pobre, pobre, pobre. Uma das moças devia ser a mãe rica, a que não tem filha nenhuma. Vivi se posicionou diante da fileira de meninas – as filhas da mãe pobre. Só de olhar para a mãe rica já caímos na risada: é que, de repente, ela tinha “virado rica”: andava como rica, olhava para as outras com olhar de rica. Do outro lado, a mãe pobre, com sua fileira de filhas. “Pobre sempre tem mais filho que rico” – uma das moças comentou. Outra, mais tímida, me confessou baixinho: “Professora, eu odiava ser pobre nessa brincadeira…”

Nessa brincadeira, a mãe rica tem que escolher, uma por uma, as filhas da mãe pobre, ela que não tem filhas, para cuidar e “dar um ofício”. Mas ao oferecer o “ofício de modelo” a Analu, a filha pobre escolhida, esta recusa: “Esse ofício não me agrada”, vai dizendo, conforme pede a brincadeira. “Quero uma coisa melhor.”

Os tempos mudaram…

São negociados ofícios engraçados, provocativos, alguns revelando o quanto as moças conhecem umas às outras e seus desejos mais íntimos.

Muitos ofícios depois, Analu só vai concordar em ir para o lado da mãe rica depois de todas as suas irmãs, quando lhe propõem o ofício de escritora. “Esse ofício me agrada”, diz Analu, e todas cantam “Lá se vai a Analu, de marré, marré, marré, lá se vai a Analu, de marré de ci!”

Finalmente todas as filhas se vão, e a mãe pobre fica sozinha. “Eu de pobre fiquei rica, de marré marré marré”, canta. E a mãe rica: “Eu de rica fiquei pobre, de marré de ci.” E tudo começa novamente.

Brincamos mais. Da brincadeira de Mês, de Passarás, não passarás e, finalmente, de Barra-manteiga. Nesta última, a capacidade de surpreender, com a derradeira palma na mão, aquela que será a pegadora, e a velocidade para pegar a companheira antes que ela ultrapasse a linha do campo oposto cria jeitos de corpo, provoca cumplicidades, gargalhadas e traz para fora o melhor ou o pior de si. Lila, esquentada, torna-se uma fera quando eu – a prima mais velha – deixo voltar para o próprio campo uma que, ao correr, não conseguiu frear e ultrapassou a linha do time adversário. Fico surpresa ao perceber que ela está mesmo brava, brava de verdade, e que é melhor não rir – ela não está brincando… seu corpo se enrijece, o tom de voz se altera, a coisa fica séria! Contemporizo, reconhecendo que ela tem razão, mas que a regra não havia sido combinada direito. Convencionamos que não se poderá mais ultrapassar a linha do campo adversário, sob pena de ficar “para sempre” no time contrário. Lila relaxa e seu corpo volta ao normal.

Papéis, regras, zangas, ataques de riso, exercícios de ser… em pouco mais de duas horas nos descobrimos de uma forma diferente.

Sei que tenho que encontrar estratégias para que elas sejam as primas mais velhas de suas crianças, na escola – hoje o quintal, a noite de verão, a rua das crianças. Meu coven de mulheres aprende, junto com a lista de brincadeiras que cresce a cada quarta-feira, que não esquecer de brincar faz parte do ofício de professora… meu maior prazer é ensiná-las este segredo.

(Paula Zurawski é atriz, pedagoga e uma grande especialista em arte e criança. Ao lado do marido Marcelo, faz o Grupo Furunfunfum ser um dos mais legais do país. Além das peças e de muita música, comanda uma festa de carnaval de salão onde os pequenos curtem marchinhas com inspiração – eu já fui e não parei de dançar e cantar um segundo!)

Thais (287 Posts)

Thais Caramico acredita em carrossel, mas prefere ver o mundo do segundo andar de um ônibus vermelho. Tem uma bicicleta que dobra, uma cachorra chamada Baleia e a mania de se perder no miolo dos livros.