Quintais Brasis afora
Por Gabriela Romeu
Já há alguns anos virei uma viajante pelas paisagens e geografias do Brasil. Pelas cidades por onde passo, há rios caudalosos, sotaques diversos, monumentos belíssimos. Mas não é nada disso que prende meu olhar. Por onde tenho andado, procuro um quintal para visitar, conhecer, adentrar – e brincar.
São muitas as realidades das infâncias que se espalham por esse país. No Brasil de dentro, meninos e meninas rodam piões na unha do dedão (!), fazem carrinhos de madeira com restos que encontram aqui e ali, constroem um barquinho chamado de rabisca com uma folha de palmeira, parecem voar na brincadeira de elástico, usam sementes no jogo do bole-bole (como é conhecida a brincadeira de cinco-marias no Norte). Sim, tudo isso eu vi pelos quintais por onde passei e brinquei.
Mas ainda tem gente que insiste em dizer que as crianças de hoje não brincam mais e quem acredita nessa máxima geralmente emenda: “Bom mesmo era no meu tempo…”. Até mesmo em lugares onde as crianças tomam as ruas com suas brincadeiras a gente encontra alguém soltando uma dessas. A infância é um tempo tão especial (diria, fundador) na vida de qualquer um que boa mesmo só a infância que se viveu – ou a infância de quem a viveu.
Depois de coordenar o projeto Mapa do Brincar (www.mapadobrincar.com.br), no jornal Folha de S.Paulo, descobri que as crianças sempre dão um jeito de brincar, já que esse é o verbo que a infância tão bem sabe conjugar.
Não existe tradição, existe transformação quando o assunto é o brincar. As chamadas brincadeiras tradicionais da infância – como pega-pega e amarelinha – vão sendo transformadas por quem mais entende do assunto – as crianças. Assim, os versos da brincadeira de palma vão parar numa música para pular corda ou as regras de pega-pega se confundem com as de esconde-esconde. Não tem certo nem errado.

Menino de comunidade ribeirinha de Parintins exibe barquinho que fez com aninga (planta que boia) / Crédito: Gabriela Romeu
O quintal é o melhor lugar para se exercitar ser criança. É ali que meninos e meninas inventam seus mundos com os cacarecos que encontram, cavoucam a terra em busca de tesouros e tatus-bola, compartilham habilidades (e os novos aprendem vendo os mais velhos), reinam com absoluta autonomia – sem que nenhum adulto precise dar dicas ou senhas.
Na Amazônia, os quintais das crianças ribeirinhas se espalham por rios e florestas. Os meninos do povo arara, lá no rio Xingu, correm pelos terreiros e se embrenham no mato com arco e flecha em punho. Brincam de caçar calango, assim como seus pais saem para caçar o jantar.
Em outros lugares, como na cidadezinha mineira chamada Carbonita, no Vale do Jequitinhonha, as ruas de terra acolhem as crianças e viram quintais compriiiidos. Por suas ruas, meninos correm puxando carrinho feito com poucos paus e com rodinhas tiradas de sandálias de borracha. À beira do riozinho que corre tranquilo pela comunidade de Abadia, está um outro quintal, onde crianças e adultos, juntos, fazem uma grande roda e brincam de cirandar.
Num país de sol escaldante como o Brasil, a sombra das árvores vira também um “quintal” acolhedor. É debaixo de uma mangueira frondosa que crianças de uma comunidade quilombola de São Mateus, no Espírito Santo, brincam a tarde toda de matinho-queimado (um tipo de corre, cutia).

Garoto de comunidade quilombola do Espírito Santo mostra avião feito de mandioca / Crédito: Gabriela Romeu
Enfim, como disse certa vez um pesquisador da cultura da infância numa entrevista em que o tema era o brincar, “o quintal é o espaço do sonho para a infância acontecer”. A frase é do mineiro Adelson Fernandes Murta Filho, mais conhecido como Adelsin.
“Ali a gente tem liberdade, os elementos da natureza e uma experiência coletiva e ao mesmo tempo individual. Cada criança, para crescer, precisaria de um quintal”, disse Adelsin, que muito se lembra de sua meninice na periferia de Belo Horizonte.
Então, que tal pais, educadores e crianças lançarem uma campanha em prol dos quintais em cidades como São Paulo? Já que a cidade carece de espaço, vale compartilhar quintais com um amigo da escola, transformar praças em espaços para brincar de verdade, pintar amarelinhas nas calçadas, mudar as regras do prédio para que eles sejam acolhedores para as crianças. Tudo por um quintal – e por uma infância plena.
(Gabriela Romeu é jornalista e documentarista. Durante 12 escreveu para e sobre crianças no jornal Folha de S.Paulo, onde editou o caderno “Folhinha” e atualmente faz crítica de teatro infantil no “Guia da Folha”. Idealizou e coordenou o projeto Mapa do Brincar. É uma das idealizadoras do projeto Infâncias, que está documentando a vida de crianças pelos quintais do Brasil.)













2 garatujos comentaram!
Tartaruga Feliz falou:
11/09/2012
gente, avião feito de mandioca é muito amor! <3
Thaís Albieri falou:
11/09/2012
O texto da Gabriela é inpsirador e me fez imaginar taaaannnntttaaa coisa bacana como resultado desse trabalho incrível…Bravo, bravíssimo pelo trabalho e pelo texto tão lindo!