Semana passada a gente falou do curta Disque Quilombola, um documentário sobre a infância que vem ganhando prêmios e recolhendo todos os elogios. O filme está em cartaz pelo Brasil – além de alguns festivais, vai rodar 10 cidades e também ser exibido em redes educativas.
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Lembra que eu fiquei de ver o filme e depois bater um papo com a Gabriela Romeu, uma das roteiristas? Pois assisti ao curta e fiquei encantada com tudo: história, linguagem, produção, roteiro, fotografia, trilha e direção. Muitas coisas são feitas para crianças, mas poucas são criadas diretamente por elas e para elas. Disque Quilombola juntou isso de um jeito que você pode ler mais na entrevista abaixo.
Gabriela Romeu: Esse filme nasceu de um encontro com Renata Meirelles e David Reeks, amigos com quem tanto compartilho um desejo de fazer coisas boas sobre e para a infância. Foi uma parceria deliciosa, de admiração e respeito mútuos, uma jornada cheia de aprendizado. A irmã da Renata, a Daniela, trabalha há anos com comunidades quilombolas no Espírito Santo e nos apresentou às famílias, que nos acolheram na proposta de registrar a infância de lá. Passamos duas temporadas com as comunidades quilombolas.
O roteiro do filme foi um presente dado pelas crianças. A gente tinha pensado em trazer a brincadeira do telefone de lata em uma das passagens da história. Mas, nas brincadeiras com as crianças em trabalho de campo, percebemos que a história era contada ali, pelo telefone, que acabou virando um “personagem” e o fio condutor da narrativa. Por essa brincadeira, elas contavam com espontaneidade aspectos de suas vidas. Acho que essa foi uma grande descoberta do filme e só aconteceu porque as crianças foram de fato ouvidas.
As conversas no telefone de lata aconteceram entre dois grupos que não se conheciam: as crianças da comunidade quilombola de São Cristóvão e as do morro São Benedito. Muitas famílias do morro tiveram que deixar suas terras na região dos quilombolas há algum tempo e foram morar no São Benedito. As crianças do morro, netas de quilombolas, já não conheciam mais a origem dos avós. Foi bonito vê-las se conhecendo mais durante o processo. Os dois grupos “se encontraram” nas filmagens feitas nos dois lugares. A equipe fez a mediação entre as crianças quilombolas e as do morro e descobria o que uns queriam saber dos outros, daí foram surgindo muitas das perguntas do filme.
Qual a faixa etária das crianças entrevistadas?
As crianças que participam do filme têm idades variadas, mas poderíamos dizer que a maioria tem entre 8 e 12 ou 13 anos. Algumas gostaram mais de brincar no telefone de lata, outras nos ensinaram outras brincadeiras. Um exemplo é o grupo de meninos, incluindo o Tchutchuca (o apelido dele) e o Cleian, que nos ensinaram a fazer lindos caminhões de madeira.
Outros ainda nos ensinaram a fazer coisas bem curiosas: a Débora e outras meninas mostraram como fazem farofa de bumbum de tanajura, uma formigona que aparece por lá quando chove. Eu experimentei a iguaria e posso dizer que… a casquinha dela, torrada, gruda nos dentes!
Queriam saber quais eram suas brincadeiras, o que comiam no dia a dia, se tinha árvores onde moravam, se existia vacas e cobras na comunidade quilombola… As crianças do morro foram conhecendo mais suas próprias origens ao conhecerem as histórias das crianças quilombolas.
As crianças falam uma mesma língua, a do brincar, e se (re)conhecem nesses gestos. Mas parece que a geografia e o contorno cultural, entre outros aspectos, sinalizam algumas possibilidades para a infância. No morro, os meninos são feras nas pipas, parece que esse é um jeito de reinarem sobre aquela pressão demográfica, com casinhas e mais casinhas, como mostramos no filme. Ali, no ar, o domínio é da infância, sem intervenções do universo adulto. Nas comunidades quilombolas, onde as crianças vivem menos apartadas dos afazeres de suas famílias, os meninos dominam o chão. Debaixo de uma grande mangueira, entre suas raízes, disputam partidas de bolinha de gude.
Se isso for feito com a delicadeza necessária, acho que sim. A grande questão muitas vezes não é mostrar o que é diferente, mas destacar a similaridade da essência da infância.









