Estava tudo pronto para contar aqui a primeira experiência com o algoritmo da divisão, mas a escrita de um aluno não me deixava continuar. Cada linha que escrevia sobre a divisão se misturava com a produção do texto desse meu grande companheiro. Então eu decidi parar tudo, fui vencida. Falar da divisão estava fácil demais, estava recheada de imagens e munida com os registros de todas as hipóteses levantadas por eles. Já o texto…

Acompanho esse aluno algumas horas por dia. No contra turno das minhas aulas em outra escola, ele me apresentou outro lugar dentro da sala de aula. As horas que ficamos juntos são cada vez mais preciosas, vivemos uma troca constante, ele me ensina a respeitar meu tempo e eu o ajudo a se organizar. Sua dificuldade maior está na comunicação, tanto oral como escrita, e por conta disso apresenta um baixo rendimento escolar. Nessa sexta-feira, ele tinha um duplo desafio: prova de inglês e de produção de texto. Perguntei se estava tudo bem, se tinha alguma dúvida, e ele me olhou dizendo:

― Vai ficar tudo bem se você ficar do meu lado.

Aí me diz, tinha como não ficar?

Começamos pela prova de inglês, que ele realizou em 15 minutos, sabia tudo… só precisava do meu olhar.

Partimos para o texto. A única exigência era que o texto apresentasse um diálogo. Logo após a explicação da professora ele me olhou e disse:

― Cá, esse diálogo é a mesma coisa que conversa?

Dei apenas um sorriso e ele logo continuou:

― Então já sei, tem que ter parágrafo, travessão e começar com letra maiúscula. Cá, tem que mudar de linha quando for responder, né?

Alguém ainda tem dúvida que esse menino sabe muito sobre textos?

Escreveu uma história recheada de bom humor, utilizando os recursos exigidos com segurança, só recorria a mim quando aparecia dúvida quanto à grafia de algumas palavras. Fui embora enquanto ele finalizava o texto, por essa razão não compartilho hoje. Estava saindo quando ele me segurou e falou baixinho:

― Você acha que eu tirei dez?

Como naquele momento poderia explicar para ele que sua nota era imensurável? Dez seria muito pouco…

Prova, prova o quê?

Carla Solano (56 Posts)

Carla Solano é professora desde pequenininha e a sala de aula é o seu lugar preferido. Tem em casa a sua maior escola, Pedro, Maria e Heleninha. Cheia de molas na cabeça, é deitada na areia que faz sua brincadeira favorita: olhar o céu.