Cor de menina, cor de menino. Atividade de menina, atividade de menino. Coisa de menina, coisa de menino. Como eu queria que esses termos tivessem caído com a reforma ortográfica ou o manual do respeito e educação garatujístico (tá, esse ainda não existe no papel!).

Só pra você ter uma ideia, a loja de brinquedos mais incrível de Londres tinha um andar para as meninas e outro para os meninos, tudo sinalizado com rosa para elas e azul para eles. Até que no ano passado, depois de muita crítica, a Hamleys resolveu trocar as placas e a disposição dos brinquedos para criar um mundo único, como deve ser. Viva!

Nada de uma parte para os meninos e outro para as meninas. Os brinquedos agora são divididos por tipos e a criança brinca do que ela quer, com aquilo que ela gosta, que a deixa feliz, oras, afinal os rótulos vêm dos adultos e são um equívoco! Pior: quem perde com esse tipo de coisa é a criança, que além de não poder experimentar o que deseja, cresce numa bolha de preconceitos embutidos – muitas vezes, os pais não se dão conta do que isso pode trazer no futuro.

Na onda rosa, um projeto britânico chamado Pinkstinks (ou Pink Fede) usa todas as suas forças para mostrar que esse mundo das meninas é uma tremenda e prejudicial jogada de marketing, além do termo sexismo. Através de campanhas, os idealizadores tentam mudar a cabeça das pessoas que separam os gêneros por cores e, mais do que isso, ficam reféns da indústria pink e de tudo que ela gera: um bombardeio de produtos que tornam as meninas mais meninas. Balela que a publicidade não poupa e que, aos poucos, cria linhas do que é  ”certo” ser ou “necessário” ter.

Foi depois de ver as duas filhas dizendo que um brinquedo de fazenda era coisa de menino, que Emma Moore resolveu, com sua irmã, fundar o Pinkstinks. Nele, ela deixa claro que há mais de uma forma de ser menina. E que isso está muito longe do mundo das princesas.

A discussão vai longe e merece não apenas este post, mas uma reportagem bonita. O que a gente faz com as crianças, aquilo que muitos pais consideram apenas algo simbólico ou uma frase, traz consequências para o resto da vida: na forma como os pequenos se relacionam, fazem escolhas, tratam as pessoas, veem as diferenças. Chega de ”não vai brincar de boneca, usar rosa ou fazer balé porque isso são coisas de menina”, “como você é menina você tem de fazer balé e não futebol, “para de brincar de luta e monstros e comporte-se como uma menina”, “menino não chora”, “essa cor, não, boneca também não porque você é menino”.

Hoje, em algumas escolas, meninos têm contato com o até então mundo das meninas em aulas de cozinha ou casinha. Mas ainda há bastante preconceito por parte dos pais e mães que defendem as filhas princesas e os filhos machões. Interessante é ver como faz a Egalia, em Estocolmo, uma escola que trabalha com a neutralização total dos gêneros. Nem os pronomes pessoais (ele e ela) são usados. Os professores ali usam a palavra colega para se referir às crianças.

Nos livros escolhidos, não há identificação de mãe e pai como feminino e masculino. E as crianças podem se vestir e brincar com o que quiserem. É interessante olhar esse outro caminho (dica excelente da Claudia Souza, que foi atualizada aqui após a publicação do post). Numa continuação a este assunto, está aqui a melhor matéria que eu li em 2012: “O que há de tão ruim em um garoto que quer usar saia?”

Como disse, há de se aprofundar no tema e estudar respostas, consequências, caminhos. A questão das cores e dos hábitos, que me trouxeram a esse assunto, é só um começo sobre o que temos de aprender e refletir. Essa questão do gênero vai longe, mas uma coisa é certa: o mundo, assim como as cores e os brinquedos, é de todo mundo. E é ensinando assim que a gente vai ver crescer crianças felizes, saudáveis e respeitosas não somente com o sexo oposto, mas com as escolhas sexuais.

[Atualização: 7 de janeiro de 2013. Hoje recebi de uma amiga uma história exatamente sobre esse assunto, publicada no blog da Rutu Modan (The New York Times) em 2007. Coloco aqui embaixo para quem quiser ler].

rutu_modan_sept07

(foto lá em cima: Movimento Direito Para Quem?)

Thais (286 Posts)

Thais Caramico acredita em carrossel, mas prefere ver o mundo do segundo andar de um ônibus vermelho. Tem uma bicicleta que dobra, uma cachorra chamada Baleia e a mania de se perder no miolo dos livros.