Quando eu assisti pela primeira vez à animação em stop motion do ratinho Rastamouse no canal CBeebies, o infantil da estatal britânica BBC, abri vários sorrisos. A série, que é líder de audiência no Reino Unido, é divertida, alegre, tem boas ideias, roteiros interessantes e ótima música. Mas logo comecei a me perguntar quanto demorou para os britânicos conservadores aceitarem bem o personagem – se é que aceitaram totalmente.

Rastamouse é um rato rastafári, urbano, com sotaque jamaicano e sua própria banda de reggae chamada Da Easy Crew (algo como A Galera Numa Boa). Ele usa um gorro colorido que esconde eventuais dreadlocks em seu pelo e, com a ajuda de amigos e colegas de banda, combate o crime em Mouseland Island, onde mora. Como bom rato, adora um queijo. Encontrei no site a descrição dele: “Um skatista que curte ska, superlegal e com um jeito tranquilão”. Tudo muito bacana, mas em um contexto nada fácil.

A animação é para ser um brinde ao multiculturalismo do Reino Unido. A Jamaica, há 50 anos, ainda era colônia britânica e Londres, hoje, tem uma enorme comunidade caribenha. O carnaval de Notting Hill, o maior do país, é acima de tudo uma festa desses imigrantes.

O discurso de multiculturalismo pode até soar bem na superfície, mas não é unanimidade. Assim que a série foi lançada, no começo do ano passado, a BBC recebeu centenas de reclamações de pais e mães preocupados com o que seus filhos estavam assistindo. A maioria contra o sotaque do ratinho, que não fala o inglês “tradicional”. Em vez de “thing”, ele fala “ting”. Em vez de “I want to go”, ele diz “Me wan go”.

Acusaram ainda o ratinho de passar mensagens truncadas para crianças. Houve quem dissesse que toda vez que os personagem falavam em queijo, eles na verdade queriam dizer maconha. Ou seja, rapidinho Rastamouse estava sob bombardeio.

A BBC reagiu: “O CBeebies tem orgulho de transmitir Rastamouse, uma nova animação colorida sobre um ratinho que luta contra o crime, baseada na aclamada série de livros dos autores Michael De Souza e Genevieve Webster.” E continuou: “O CBeebies se dedica a refletir as vidas de todas as crianças neste país e o Rastamouse tem um apelo particular às crianças Afro-Caribenhas – uma parte sub-representada da nossa audiência.”

Os autores da série disseram que até entendem que se possa inferir que o queijo, na verdade, seja maconha, mas que a associação está longe de ser direta e jamais seria feita por crianças.

Para o público britânico, o choque da série é grande. O apelo do ratinho é bem diferente das animações que já fizeram (e ainda fazem) sucesso no Reino Unido. Shaun, o carneirinho, e Wallace & Gromit mostram uma tradicional vida no campo, ao contrário da urbanidade cool e jamaicana do Rastamouse.

Mas o choque deu certo. O ratinho, que representa uma minoria, quebrou a regra e tornou-se um enorme sucesso. Hoje ele está em livros, DVD e CDs de reggae com composições próprias. Para quem ainda não assistiu, vale a pena conferir o clipe abaixo. Como já foi vendido para o mundo todo, logo logo deve chegar no Brasil. Alguém sabe quando? Porque quando chegar, vai fazer estardalhaço.

Beto (41 Posts)

Beto gosta de dormir sentindo o livro escorregar da mão sonolenta. Quando sonha com o que leu, acorda querendo ver desenho. Um dia ele consegue fazer isso sem parar: ler, sonhar e ver desenho.